ENSINO A DISTÂNCIA NOS ESTABELECIMENTOS PRISIONAIS

O presente documento resulta de um levantamento feito pela Associação Portuguesa de Educação nas Prisões (APEnP) a um conjunto de Escolas Associadas (EAs) de Estabelecimentos Prisionais (EPs) relativamente ao processo de ensino/formação no atual momento de exceção, que todos estamos a viver.[1]

No seguimento do convite endereçado a 22 de maio último a estas instituições a participar num estudo, que tem como principal objetivo analisar a forma como o Ensino a Distância se encontra a ser efetivado nos EPs, de acordo com um conjunto de indicadores, então sugeridos, que compreendem atores envolvidos, estratégias adotadas, recursos, avaliação (pontos fortes / constrangimentos), revelam-se agora, um mês após o início, os seus resultados.

Com efeito, dos 44 EPs com programas de educação/formação em vigor (de um total de 49 em Portugal), 21 instituições enviaram-nos os seus relatos, disponíveis no nosso website (www.apenp.pt),[2] registando um índice de participação na ordem dos 47.7%, abrangendo o território nacional da seguinte forma:

Região Norte

  • Agrupamento de Escolas Abade de Baçal (Estabelecimento Prisional de Izeda)
  • Agrupamento de Escolas Dr. Júlio Martins (Estabelecimento Prisional de Chaves)
  • Agrupamento de Escolas João de Meira (Estabelecimento Prisional de Guimarães)
  • Agrupamento de Escolas Latino Coelho (Estabelecimento Prisional de Lamego)
  • Escola Secundária João Gonçalves Zarco (Estabelecimento Prisional do Porto – Custóias)
  • Escola Secundária João Gonçalves Zarco (Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo – feminino)

Região Centro

  • Agrupamento de Escolas Afonso de Paiva (Estabelecimento Prisional de Castelo Branco)
  • Agrupamento de Escolas de Aveiro (Estabelecimento Prisional de Aveiro)
  • Agrupamento de Escolas Eugénio de Castro (Estabelecimento Prisional de Coimbra)
  • Agrupamento de Escolas Pêro da Covilhã e Escola Secundária Campos Melo (Estabelecimento Prisional da Covilhã)

Região da Grande Lisboa e Ilhas

  • Agrupamento de Escolas D. Carlos I e Agrupamento de Escolas Leal da Câmara (Estabelecimento Prisional de Sintra
  • Agrupamento de Escolas D. João II (Estabelecimento Prisional de Caldas da Rainha)
  • Agrupamento de Escolas de Montijo (Estabelecimento Prisional do Montijo)
  • Agrupamento de Escolas Ibn Mucana (Estabelecimento Prisional de Linhó)
  • Agrupamento de Escolas Rafael Bordalo Pinheiro (Estabelecimento Prisional de Caldas da Rainha)
  • Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho (Estabelecimento Prisional de Lisboa)
  • Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho (Estabelecimento Prisional de Monsanto)

Região Sul

  • Agrupamento de Escolas n.º 2 de Beja (Estabelecimento Prisional de Beja)
  • Agrupamento de Escolas de Grândola (Estabelecimento Prisional de Pinheiro da Cruz)
  • Escola Secundária du Bocage (Estabelecimento Prisional de Setúbal)
  • Estabelecimento Prisional de Silves

I. (Re)Início do processo de Ensino a Distância
Desde a interrupção (presencial) das atividades letivas a 13 de março, no âmbito do Decreto-Lei n.º 10-A/2020, na sua grande maioria, o ensino nos EPs foi retomado um mês depois, em finais de abril, sendo que algumas exceções ocorreram (EPs de Aveiro, Pinheiro da Cruz), que não chegaram, propriamente, a suspender as atividades de ensino/formação, adaptando-se rapidamente a uma nova realidade. Porém, casos houve em que, por motivos de organização interna, este processo foi mais tardio, nomeadamente no mês de maio (EPs Beja, Porto (Custóias), Santa Cruz do Bispo – fem.).

II. Intervenientes
Neste indicador, destaca-se a cooperação entre instituições e atores envolvidos em todo o processo. Por parte das instituições de ensino, as equipas pedagógicas de docentes predispuseram-se a uma colaboração, sem precedentes, com os Estabelecimentos Prisionais, tendo estes delegado em um dos adjuntos do diretor ou Técnico Superior de Reeducação (TSR) – normalmente, o responsável pela formação no EP –, que coordena o processo no interior da instituição.

De acordo com os relatos recebidos, este é um procedimento com articulação direta entre os responsáveis pela efetivação do Ensino a Distância no EP (adjunto do diretor ou TSR) e equipa pedagógica da EA (Coordenador Pedagógico), (CP).

III. Estratégias/recursos
No tocante a este indicador e, uma vez mais, baseados nas informações recebidas, verificou-se o recurso (praticamente) exclusivo ao modelo assíncrono do processo de Ensino a Distância, tendo sido apontados como principais motivos por esta opção a obsolescência dos equipamentos informáticos, na maior parte dos EPs, assim como imperativos de (ciber)segurança.

No cumprimento de tais pressupostos, imperou o recurso ao suporte de papel, assentando a sua concretização em expedientes, como:

i. Envio por email (normalmente a cargo do CP) de propostas de trabalho e recursos auxiliares (ex. suporte teórico) ao responsável no EP, para impressão e distribuição aos alunos/formandos – método mais utilizado.

ii. Entrega em mãos (pelo CP) no próprio EP – estratégia menos usada, pois obriga a período de quarentena.

Refira-se que, tanto um como outro, compreendem a recolha das fichas de trabalho, por parte do responsável por este processo no EP, para entrega/envio ao CP que, por sua vez, as distribui aos restantes elementos da Equipa para avaliação e feedback aos formandos pela mesma via.

O período de tempo adotado em ambos é, na sua grande maioria, semanal, registando-se, contudo, instituições em que tal se efetua quinzenalmente (EPs de Beja, Castelo Branco, Linhó, Lisboa, Setúbal) e mensalmente (Pinheiro da Cruz).

Elencam-se, de seguida, alguns exemplos de estratégias colocadas em prática:

Cadernos semanais, nominalmente identificados, destinados aos formandos de cada curso EFA (contendo instruções específicas acerca do seu preenchimento, matéria de estudo para a semana em causa e exercícios/provas a realizar), uma estratégia ancorada em contactos diários entre o CP e o adjunto do diretor do EP, de forma a monitorizar o processo; reuniões regulares dos docentes (formatos áudio e vídeo), para apreciação conjunta da evolução dos formandos; mensuração mensal dos resultados e avaliação do progresso destes e do próprio processo; compreendem um tipo de procedimentos a seguir com atenção, tal como os colocados em prática pelos elementos da equipa pedagógica do AE de Aveiro.

O recurso ao trabalho autónomo escrito, extensivo a demais EPs do país, e o número reduzido de alunos nas três turmas de Ensino Recorrente (10º, 11º e 12º anos), não permitiu outra que não a estratégia adotada pelos docentes da ES Maria Amália Vaz de Carvalho no EP de Lisboa. Este processo tem compreendido o envio de roteiros de atividades, com fichas de trabalho de cada disciplina e posterior recolha e reenvio via CTT, pelos serviços do EP, culminando com feedback aos alunos, a partir da avaliação das respetivas tarefas pelos professores.

Estratégias como ‘banco de dúvidas’ a serem esclarecidas pelo docente, tal como a utilizada pelo AE D. João II (EP de Caldas da Rainha), bem como a seleção quinzenal de um livro, do Plano Nacional de Leitura, no seguimento dos conteúdos abordados, reforçando as aprendizagens revelam práticas de aprendizagem contextualizada de conteúdos e de consolidação de conhecimentos. Com efeito, e de um modo geral, o recurso às bibliotecas nos EPs para realização das tarefas, surge como exemplo de boas práticas de trabalho individual de alunos/formandos, em consonância com uma gestão integrada de meios, por parte das instituições prisionais.

O visionamento das aulas, que decorrem no canal RTP Memória “#EstudoEmCasa” – EPs de Beja, Izeda, Lamego, Pinheiro da Cruz, este último recomendando ainda a RTP Madeira (para o Nível Secundário) –, igualmente acessíveis nas instituições prisionais, revelam-se (mais) uma estratégia de complemento ao trabalho de docentes/formadores e uma ferramenta de valor educativo acrescido neste sentido.

O envio de mais do que uma ficha de trabalho semanal depende de uma avaliação de necessidades de reforço de aprendizagens em cada área de competências-chave, objetivando que o trabalho dos formandos seja autónomo, de acordo com a sua disponibilidade e no cumprimento de regras e horários dos serviços prisionais, foi a metodologia seguida pelos docentes do AE de Montijo.

Deste modo, uma das estratégias empregues assenta no envio de uma ficha de verificação das aprendizagens (sem soluções) para autocorreção depois devolvida aos docentes (somente estas são devolvidas, de modo a reduzir o número de fichas que sai do EP, facilitando o processo, por sua vez, os restantes materiais são guardados nos dossiers individuais para posterior aferição).

Este processo compreende ainda reuniões online semanais dos elementos da equipa pedagógica, de modo a, antecipadamente, se prepararem os recursos pedagógicos necessários à prossecução deste modelo de ensino.

Dada a suspensão das atividades letivas, uma maior preocupação com a recapitulação das matérias dadas e com a consolidação de conhecimentos dos alunos/formandos, em contraponto a um risco de se encetar uma abordagem a novos conteúdos sem garantia de terreno sólido, parece-nos procedimento acertado a seguir, tal como o efetuado pelos elementos da equipa pedagógica do AE Eugénio de Castro (EP de Coimbra), nomeadamente numa lógica de reforço de caminho percorrido, precedendo a construção de aprendizagens subsequentes com maior eficácia.

A disponibilização dos emails institucionais dos professores a reclusos, abrangidos pelo regime excecional de flexibilização da execução das penas e das medidas de graça, no âmbito da pandemia da doença Covid-19 (Lei n.º 9/2020, de 10 de abril), para que estes tenham a possibilidade de continuar/concluir os seus percursos formativos no exterior (AE Leal da Câmara | EP de Sintra; AE Rafael Bordalo Pinheiro | EP de Caldas da Rainha; ES João Gonçalves Zarco | EP do Porto – Custóias), surge como medida exemplar no sentido de quem considera a educação um direito, independentemente da situação jurídico-legal a quem esta se destina.

A assinatura de um registo, por parte dos formandos no EP de Setúbal, confirmando a receção das propostas de trabalho, posteriormente encaminhado, via email, para os coordenadores das respetivas equipas pedagógicas, mais do que uma medida de monitorização, revela-se instrumento facilitador no processo de aferição à realização das atividades propostas por professores/formadores.

A utilização do GDrive (Google) para partilha de materiais entre a equipa pedagógica do AE João de Meira e a direção do EP de Guimarães, bem como o feedback aos formandos, pela mesma via, surge como mais um exemplo de como as ferramentas eletrónicas poderão ter aplicabilidade prática no seio da comunidade educativa prisional.

Last but not least, o exemplo do recurso às TIC no EP de Silves, através do sistema de videochamada, que resultou na primeira sessão de júri num Estabelecimento Prisional (28 de maio último), permitindo a um candidato de RVCC, do Centro Protocolar da Justiça (CPJ), concluir o Ensino Secundário é, por si só, paradigmático do enorme potencial que o digital oferece, não somente para o trabalho de professores/formadores, como também para o de alunos/formandos.

IV. Avaliação/sugestões

Relativamente a este indicador, e tomando em consideração a conjuntura vivida, o contexto e público-alvo a que se dirige a atividade docente, e dada a excecionalidade do tempo em que vivemos, os relatos apontam para uma avaliação positiva. Não obstante, algumas sugestões são apresentadas pelos atores no terreno, objetivando melhorar o atual estado de efetivação do ensino/formação nos EPs.

Apresentam-se, assim, alguns exemplos:

Processo com alguns constrangimentos iniciais, nomeadamente de organização interna por parte da instituição prisional, contudo, ultrapassados já, sendo que na atualidade a avaliação é muito positiva (índice de retorno de trabalhos realizados na ordem dos 88%).

Os seus intervenientes procederão a uma avaliação do processo no final do ano letivo, com conhecimento a entidades relevantes, lançando, desde logo, alguns tópicos para reflexão:

i. Necessidade de investimento em competências digitais e formas de acesso às novas tecnologias e recursos digitais.

ii. Promoção de formação especializada, nesta área, para técnicos e professores.

iii. Atender à área da Educação Especial, também, no contexto prisional [AE n.º 2 de Beja | EP de Beja].

Apesar de alguns contratempos surgidos no decurso do processo, a avaliação é positiva dadas as circunstâncias. O destaque vai para o papel da equipa pedagógica e para o envolvimento das direções de ambas as instituições na contínua efetivação deste modelo de ensino/formação [AE Dr. Júlio Martins | EP de Chaves].

Desde o início, um processo caracterizado pela sua funcionalidade e que tem assentado numa estreita colaboração entre as equipas pedagógica e prisional (Direção do EP, Técnicos de Reeducação, Chefia de Guardas e respetivo grupo de Guardas Prisionais), sem a qual não teria tido sido possível a sua implementação [AE Afonso de Paiva | EP de Castelo Branco].

A aplicação da Lei n.º 9/2020, de 10 de abril, deixou marcas no ensino/formação neste estabelecimento prisional (ex. curso de jardinagem do CPJ, com somente 3 formandos), efeitos que se verificaram também nos restantes EPs do país e que levaram as respetivas instituições a terem de se adaptar a (mais) esta realidade, tal como referido já. A saída de grande parte dos formandos repercutiu-se no número de inscritos nos cursos, sem embargo de fazerem esmorecer o trabalho destas instituições [AE D. Carlos I e AE Leal da Câmara | EP de Sintra].

Num modelo de ensino a distância funcionando dentro das limitações inerentes a um ensino não presencial, vislumbra-se, também, uma oportunidade a aproveitar nesta crise pandémica – a metodologia empregue poderá contribuir para uma maior autonomia nos formandos. Pelo menos, assim o desejam os seus responsáveis.

De destacar a estreita cooperação e envolvimento das instituições (prisionais e educativas), com base na qual tem assentado, e resultado, a implementação deste modelo de ensino [AE de Montijo | EP do Montijo].

O fomento da independência e da responsabilidade dos alunos/formandos em assumir a execução das atividades (o portefólio é organizado individualmente contendo o trabalho realizado, a ser avaliado no final do ano letivo), para além do desenvolvimento das suas capacidades cognitivas são características a destacar no processo. A disponibilidade da direção do EP para a receção, impressão e entrega dos materiais não deixa de ser, igualmente, relevada.

Em contraponto, a impossibilidade de contacto direto com os professores/formadores e, ainda, a pouca autonomia revelada por parte de alguns formandos na realização das tarefas são os constrangimentos apontados [AE Ibn Mucana | EP de Linhó].

Em poucas palavras se resume a avaliação do processo de ensino/formação em curso – a dedicação e o empenho que os alunos têm demonstrado na realização das tarefas são ilustrativos do sucesso da metodologia empregue [AE Pêro da Covilhã e ES Campos Melo | EP da Covilhã].

Pretende-se que este plano tenha outras condições mais favoráveis no próximo ano letivo, de forma a conseguir uma interação formando-formador mais frequente e mais regularizada – sintetiza a apreciação da equipa pedagógica relativamente ao processo em curso [AE João de Meira | EP de Guimarães].

Revelando um balanço positivo, no seguimento de indicadores pré-estabelecidos, nomeadamente o grau de realização dos trabalhos, pontualidade e assiduidade na recolha e entrega dos mesmos, resultados da avaliação, para além do envolvimento ativo dos atores no processo (formandos, professores e técnicos de reeducação), são aspetos mais que suficientes, salvo orientações em contrário, a ditarem o cumprimento da estratégia seguida até ao final do corrente ano letivo.

A conversão do trabalho realizado em horas de formação, bem como o envio de documento personalizado aos formandos, contendo informação sobre a sua evolução em número de aulas, dificuldades detetadas, sugestões de melhoria e avaliação, oferecem uma boa sugestão de como este modelo poderá ser replicado por demais equipas pedagógicas [AE de Aveiro | EP de Aveiro].

As contingências provocadas pela situação pandémica atual, aliadas à impossibilidade de acesso dos alunos a recursos informáticos, têm obrigado a um modelo assíncrono de ensino a distância via suporte de papel, com efeitos nos resultados da avaliação ao trabalho dos alunos, que, não obstante, têm sido considerados satisfatórios [ES Maria Amália Vaz de Carvalho | EP de Lisboa].

V. Principais conclusões e recomendações (Rec)

Tendo em conta que a atividade de ensino/formação em contexto prisional se dirige a um público adulto, há muito habituado a medidas de confinamento e distanciamento social, a necessidade de adoção de um modelo, que compreendesse no seu bojo a possibilidade de adaptação a um tal meio e respetiva população, obrigou a estreita colaboração entre atores e respetivas instituições, no sentido de desenhar, e colocar em prática, sistema similar ao implementado em estabelecimentos de ensino no exterior.

Todavia, a realidade prisional, dado o conjunto de especificidades que a compõe, uma vez mais demonstrou que, no campo da educação e formação, do plano das intenções à sua aplicação na prática, existe ainda caminho a percorrer.

Não esmorecendo nas suas intenções, delinearam os seus atores um percurso possível, certos que “o caminho faz-se caminhando” e que, entre o modelo seguido e nenhum modelo, a escolha tinha de ser, sobretudo, realista.

De acordo com levantamento efetuado, atente-se, de seguida, num conjunto de conclusões e recomendações, com especial enfoque no serviço de ensino/formação prestado e no seu caráter imprescindível a uma população cuja reinserção na sociedade e mercado de trabalho, afastando fenómenos de recidiva, são objetivo primacial a atingir:

1. Tendo em conta uma situação pandémica que a todos apanhou de surpresa e que obrigou a uma intervenção com caráter de urgência, por parte das autoridades nacionais, nomeadamente, e no que ao setor da Educação concerne, com o encerramento de estabelecimentos de ensino e o recurso a um modelo de Ensino a Distância assente em plataformas digitais, no caso dos Estabelecimentos Prisionais tal prontidão não teve a celeridade correspondente, resultando, na sua grande maioria, na suspensão das atividades de ensino/formação.

De acordo com os relatos recebidos, foi patente o sentido de organização e colaboração que tanto EAs como EPs demonstraram, no sentido de ir coordenando o processo, a nível local, enquanto aguardavam por orientações das respetivas tutelas. O que efetivamente sucedeu, no caso dos EPs, num documento a estes remetido pela Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais (DGRSP), já em maio do corrente ano, e intitulado Medidas de Intervenção na Área do Ensino e Formação Profissional em Meio Prisional, infelizmente, não tendo tido igual correspondência na área da Educação, apesar do prometido aos diretores de escolas nesse sentido.

Rec: Não sendo objetivo do presente documento, dada a diferença de públicos e contextos, um paralelo com medidas tomadas no exterior, recomenda-se, no entanto, igual preocupação para com os alunos/formandos das Escolas nos EPs, tendo em conta que, também, integram os dados estatísticos da Educação em Portugal.

Assim, uma maior interligação com os atores no terreno, designadamente, com as direções das escolas (associadas), será desejável, pois, para além de um conhecimento privilegiado da realidade do ensino em meio prisional, possuem um capital de experiência acumulado ao nível da cooperação com tais instituições.

2. No seguimento de recomendação anterior e relativamente ao tempo que mediou a interrupção das atividades de ensino/formação e o seu reinício, na grande maioria das situações, um período não inferior a um mês (em algumas situações bem superior), verificou-se que, a preocupação, neste momento, se centra no cumprimento possível dos Projetos Educativos, em curso, nas instituições prisionais (cf. Despacho Conjunto n.º 451/99, de 1 de junho – a necessitar de revisão urgente, mas que não cabe na economia do presente documento), nomeadamente, contabilizando tempo de trabalho dos formandos, após cuidada análise e avaliação das suas realizações, em tempo de formação (AE de Aveiro | EP de Aveiro).

Rec: De forma a recuperar algum do tempo perdido, e de acordo com o assumido por várias escolas associadas para os respetivos EPs (Aveiro, Beja, Coimbra, Monsanto, Pinheiro da Cruz), recomenda-se o seguinte procedimento:

i. Prolongamento das atividades de ensino/formação, tendo como referência o final dos exames nacionais do Ensino Secundário (1ª fase) – 23 de julho (2020).

ii. Início do ano letivo 2020/21 no dia 1 de setembro (2020), uma vez mais, servindo de referência o calendário de realização dos exames nacionais (Ensino Secundário – 2ª fase).

3. Atributos como um parque informático obsoleto e imperativos de (ciber)segurança e de controlo, por um lado, e um modelo síncrono de Ensino a Distância, por outro, dificilmente confluem a uma estratégia de sucesso.

Com efeito, a utilização de plataformas digitais de forma segura e controlada, tendo por base o know-how e os recursos das instituições de ensino, poderá ser de enorme utilidade no facilitar de propostas eficazes a um tal desiderato e, em simultâneo, servir como precioso auxiliar no combate a fenómenos de infoexclusão por entre a população reclusa (refira-se que, neste campo, são já vários os projetos desenvolvidos a nível (inter)nacional).

Na verdade, o relato do EP de Silves é deveras elucidativo nesta matéria. O recurso a plataforma online para realização de uma sessão de júri de RVCC (pela primeira vez num EP em Portugal), permitindo a conclusão do Ensino Secundário a um formando, parece-nos um bom exemplo de como a sua colocação em prática não só é possível como desejável, tendo em conta os fins a que se destina.

Rec: Tomando em consideração as medidas de apetrechamento de material informático para a área da educação para o próximo ano letivo, no âmbito do Programa de Digitalização para as Escolas, propõe-se que o Ministério da Educação, em concertação com o Ministério da Justiça, estenda a sua aplicação, também, às Escolas nos EPs, deste manifestamente carente, no seguimento de uma estratégia louvável de não deixar ninguém para trás.

4. No mesmo diapasão, a colocação em liberdade de vários alunos/formandos, no âmbito da Lei n.º 9/2020, de 10 de abril, obrigou a que as Escolas se organizassem no sentido de acompanhar o percurso formativo destes indivíduos no exterior.

Parece-nos elogiável a intenção das equipas pedagógicas em envidar os seus melhores esforços, no sentido de evitar que se deite por terra todo um percurso iniciado intramuros, envolvendo as organizações prisional e escolar, assim como suportado pelo erário público.

A questão não reside tanto na atitude altruísta destes profissionais, meritória sem dúvida, mas no modo de acompanhamento do seu percurso formativo.

Rec: Assim, a monitorização deste público em liberdade acrescentando trabalho extra ao horário dos professores, merece análise cuidada, não vá o excesso de zelo quedar-se pelas intenções.

Parece-nos, por isso, pertinente que entre os elementos da equipa pedagógica e o órgão de gestão da EA se proceda a um planeamento prévio e conjunto, no sentido de conciliar os recursos disponíveis com o propósito educativo. A proposta apresentada pelo AE n.º 2 de Beja, parece apontar nesse sentido, nomeadamente a redução da carga horária letiva no EP de forma a poder acudir a este público.

5. Finalmente, no momento de preparação deste estudo, fomos confrontados com o reinício das visitas aos Estabelecimentos Prisionais, que haviam sido suspensas para proteção da população recluída e staff da DGRSP perante um contexto de emergência e isolamento social.

A presença de familiares e entes queridos junto de quem destes se encontra privado, mesmo que de manifestações de carinho se vejam impossibilitados, é, obviamente, fundamental para que laços de fraternidade e afeição não se percam, contribuindo para atenuar momentos de sofrimento e abandono.

Num outro plano, os efeitos que a pandemia por Covid-19 tem provocado no processo de ensino/formação são indiscutíveis, nomeadamente no modo como este se tem processado, sobretudo, e no que ao presente documento interessa, nos EPs. Na verdade, a situação vivida nos últimos meses constitui uma experiência, inegavelmente, meritória de todos quantos nesta se envolveram, mas que se espera que seja, apenas, uma solução provisória e temporária.

Vendo-se a braços com uma situação excecional e a necessidade de serem encontradas respostas condizentes e aplicáveis ao contexto e público-alvo, aos atores e instituições envolvidas nada mais restou senão a adoção de um modelo, de inegável utilidade, possibilitando que a população prisional se pudesse manter, minimamente, ativa e engajada, porém, incapaz de substituir a relação humana professor/aluno no processo de ensino e aprendizagem.

Rec: Desta forma, e tendo em conta que se reiniciaram já as visitas aos reclusos nos EPs, salvaguardadas as devidas medidas sanitárias e condições das próprias instituições, e com base no pressuposto que a presença física do professor é percecionada pelos alunos/formandos como elemento catalisador de aprendizagens e desenvolvimento de competências, propõe-se igual recomeço das atividades letivas presenciais nos Estabelecimentos Prisionais.

Dá-se, assim, por concluído o presente documento, não sem antes agradecermos a todos quantos connosco colaboraram, atores/instituições (prisionais e educativas), pois sem a sua participação tal não teria sido possível.

Fazendo votos para que o mesmo vá de encontro às pretensões iniciais e que tenha servido o propósito para o qual foi desenhado e produzido, certos que voltaremos ao contacto no futuro (próximo).

Associação Portuguesa de Educação nas Prisões (APEnP)
PORTUGAL
junho de 2020



[1] Para uma melhor compreensão à leitura deste documento, refira-se, em alguns casos e por motivos diversos, a possibilidade de existir mais de uma EA a um EP, sendo que o inverso também sucede.
[2] Com base nos quais foi composto este trabalho, sendo que, a um conhecimento mais contextualizado, se aconselha a sua leitura.

 

Associação Portuguesa de Educação nas Prisões
Departamento de Educação e Psicologia
Edifício Polo I da Escola de Ciências Humanas e Sociais
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Quinta dos Prados, 5001-801 VILA REAL
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